O golpe do falso advogado entrou em uma nova fase — e ficou muito mais perigoso.
Esqueça aquela mensagem mal escrita, enviada por um desconhecido, dizendo que você ganhou uma ação judicial e precisa pagar uma taxa para receber o dinheiro. A fraude está se profissionalizando.
Agora, o criminoso pode saber seu nome, o nome do seu advogado, o número do processo, quem são as partes, qual é o tribunal e até informações sobre decisões judiciais. Em golpes mais sofisticados, pode reproduzir a identidade visual de escritórios, utilizar números aparentemente legítimos e criar chamadas de vídeo ou falsas audiências com pessoas se apresentando como advogados, juízes ou integrantes do Ministério Público.
A vítima olha para aquilo e pensa: “Se eles sabem tudo sobre o meu processo, só podem ser verdadeiros”.
É exatamente aí que mora o perigo.
O processo pode ser verdadeiro. O contato, não.
Existe uma confusão importante que precisa ser esclarecida. O fato de o criminoso conhecer informações de um processo não significa necessariamente que tenha invadido os sistemas do Poder Judiciário.
Grande quantidade de informações processuais é pública. A isso podem ser somados dados obtidos em vazamentos, redes sociais, cadastros expostos e outras fontes digitais.
O fraudador coleta essas informações, cruza os dados e constrói uma narrativa personalizada.
É uma espécie de engenharia social sob medida.
Antigamente, o golpista precisava descobrir quem você era. Hoje, muitas vezes ele já sabe. O desafio dele passou a ser outro: fazer você acreditar que ele é alguém em quem você confia.
Por isso, precisamos abandonar uma velha percepção de segurança: conhecer informações verdadeiras sobre você não prova a identidade de quem está do outro lado da tela.
Quando a fraude vira uma peça de teatro digital
Outro elemento preocupante é o nível de encenação.
Não estamos falando apenas de uma mensagem no WhatsApp. Golpistas podem utilizar spoofing, perfis falsos, documentos aparentemente oficiais, logotipos, fotografias e videoconferências.
Com inteligência artificial generativa, clonagem de voz e deepfakes cada vez mais acessíveis, a capacidade de criar uma falsa aparência de legitimidade tende a aumentar.
Imagine receber uma ligação aparentemente originada do escritório que cuida do seu processo. Em seguida, você participa de uma videoconferência na qual aparecem pessoas apresentadas como advogado, juiz ou promotor. Elas conhecem detalhes reais da ação e dizem que existe um valor significativo para você receber.
Só falta uma coisa.
Um Pix.
É nesse momento que toda a estrutura criada pelo criminoso revela sua verdadeira finalidade.
Urgência + autoridade + dinheiro
Existe uma fórmula que aparece repetidamente nos golpes de engenharia social: urgência, autoridade e dinheiro.
“Você precisa fazer agora.”
“O juiz determinou.”
“Se não pagar hoje, perde a indenização.”
“Precisamos recolher essa taxa imediatamente para liberar o valor.”
A urgência não está ali por acaso. Ela serve para impedir que a vítima faça aquilo que mais prejudica um golpista: parar e verificar.
Quanto maior a pressão para decidir imediatamente, maior deve ser a desconfiança.
E há uma regra prática fundamental: nenhuma audiência virtual transforma uma cobrança suspeita em legítima. Juiz, promotor ou advogado não vai exigir que uma pessoa faça um Pix imediato durante uma chamada para garantir a liberação de uma indenização.
“Faça este Pix para liberar seu dinheiro”
Essa frase deveria acionar imediatamente um alerta.
Valores depositados judicialmente seguem procedimentos formais de levantamento e transferência dentro do processo, por meio dos mecanismos oficiais do Poder Judiciário.
Portanto, se alguém afirma que existe uma indenização, acordo, precatório ou outro valor judicial disponível, mas condiciona sua liberação ao pagamento urgente de uma suposta taxa por Pix enviada pelo WhatsApp, interrompa a operação.
Não clique no link fornecido.
Não ligue para o número indicado na mensagem.
Não continue discutindo com o suposto advogado.
Procure seu advogado ou escritório por um canal que você já conhecia antes daquele contato.
Essa mudança de canal é uma das ferramentas mais simples e eficientes contra a engenharia social.
Fez o Pix? A velocidade da reação importa
Se a vítima percebe a fraude depois da transferência, não deve esperar.
É necessário comunicar imediatamente a instituição financeira, informar que houve fraude e solicitar os procedimentos cabíveis para tentativa de bloqueio e recuperação dos recursos, inclusive por meio do Mecanismo Especial de Devolução — MED — quando aplicável.
Também deve registrar boletim de ocorrência e preservar todas as evidências digitais: mensagens, números telefônicos, áudios, vídeos, e-mails, documentos enviados, links, chave Pix, dados do beneficiário e comprovantes da transferência.
Essas informações podem ser importantes tanto para a investigação criminal quanto para eventual medida judicial.
Dependendo das circunstâncias concretas, também poderá existir discussão sobre responsabilidade das instituições financeiras envolvidas, especialmente quando houver elementos indicando deficiência nos mecanismos de prevenção, detecção ou resposta à fraude.
Isso, porém, precisa ser analisado individualmente. Não existe ressarcimento automático simplesmente porque o pagamento decorreu de um golpe.
Os escritórios de advocacia também precisam mudar
Existe outro lado dessa história que merece atenção.
A prevenção não pode ser responsabilidade exclusiva do cliente.
Escritórios de advocacia precisam estabelecer protocolos claros de comunicação. O cliente deve saber previamente quais números pertencem ao escritório, quem está autorizado a falar sobre pagamentos e de que maneira são solicitados honorários, custas ou outras despesas.
Também é recomendável orientar expressamente o cliente: recebeu uma mensagem sobre liberação de dinheiro ou pedido de Pix? Confirme conosco antes de pagar.
Uma frase simples no contrato, no WhatsApp institucional, no e-mail e no site pode evitar um prejuízo enorme.
A advocacia também entrou definitivamente na era da cibersegurança.
A verdade virou matéria-prima para a fraude
Talvez essa seja a principal mudança que estamos assistindo.
Os golpes digitais mais sofisticados não são construídos apenas com mentiras. Eles utilizam uma quantidade cada vez maior de informações verdadeiras para tornar uma única mentira extremamente convincente.
O processo existe.
O advogado existe.
A ação judicial existe.
O valor pode até existir.
Quem não existe é aquele advogado do outro lado do WhatsApp.
E o criminoso precisa apenas que a vítima acredite nele durante alguns minutos.
Por isso, diante de qualquer solicitação financeira relacionada a processo judicial, a regra deve ser simples:
Pare. Confirme por outro canal. Só depois faça qualquer pagamento.
No mundo digital, desconfiar deixou de ser paranoia.
Virou protocolo de segurança.
✍🏻Escrito por: Afonso Morais – Advogado especialista em Direito Digital e combate a fraudes e golpes digitais. Fundador do Pardi e Morais Consultores Jurídicos. Criador e apresentador do Falando de Fraudes Podcast.
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