Mas os dados do Banco Central mostram um outro fato importante. Nunca antes na história deste país, as empresas estatais foram tão mal geridas. Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023, até outubro, o déficit produzido pelas empresas públicas soma R$ 13,7 bilhões.
Esse valor supera a soma dos déficits gerados nas gestões Lula 1, Lula, 2, Dilma 1 e Dilma 2. Acumulando-se os déficits produzidos nas quatro gestões anteriores chega-se a uma somatória de R$ 10,2 bilhões. Na prática, o desempenho negativo de quase três anos de Lula supera em 34% os pouco mais de 13 anos em que o PT ficou no poder.

Joia das estatais
Vale lembrar que os dados do Banco Central não levam em consideração empresas como Petrobras, Eletrobras e nem mesmo os bancos públicos como Caixa e Banco do Brasil. Entram nessa conta Emgepron, Hemobrás, Cada da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev, Emgea e os Correios, uma das joias mais antigas entre as estatais brasileiras.
E é exatamente nos Correios que está o caso mais emblemático da crise das estatais federais. A combinação de má gestão, concorrência avassaladora e a ausência de um modelo de financiamento para a função social criou uma tempestade perfeita que culminou em um rombo que ameaça a estabilidade fiscal do país.
A empresa entrou na maior crise de sua história, acumulando um prejuízo de R$ 4,37 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025, totalizando uma perda anual superior a R$ 6,1 bilhões. Diante da sangria de caixa e trimestres consecutivos de resultados negativos, o Conselho de Administração da estatal aprovou a contratação de um empréstimo de R$ 20 bilhões para tentar salvar a empresa.
A ideia é que o valor sirva para financiar uma reestruturação e socorrer o caixa. Contudo, a operação exigirá o aval do Tesouro Nacional e, segundo analistas, representa a maior garantia concedida pela União a qualquer estatal, estado ou município nos últimos 15 anos. O montante é visto como uma “morfina fiscal” que adia o colapso, mas impõe um custo financeiro adicional de cerca de R$ 2 bilhões por ano em juros.
Para tentar o equilíbrio financeiro até 2027, o plano de reestruturação da companhia prevê o fechamento de agências, a venda de ativos imobiliários ociosos e a implementação de um Plano de Demissão Voluntária (PDV), medidas que apontam para uma drástica redução de custos.
A raiz do problema nos Correios
Para os críticos, a melhor saída para os Correios seria a privatização. Contudo, o governo já disse que não enxerga na venda da empresa para o setor privado uma possibilidade, pelo menos no momento.
“O episódio dos Correios só pioraria a percepção de risco associada às contas públicas. Outra opção para apagar o incêndio seria uma capitalização, que também afetaria o resultado primário. Esse seria o caminho fiscalmente responsável e transparente para lidar com o problema, desde que sem mudança de regra fiscal. Empréstimo ou capitalização, é imprescindível que a ajuda seja acompanhada do ajustamento da situação financeira da estatal”, diz Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.
Em sua avaliação, do ponto de vista fiscal, ou bem a empresa transforma-se em uma estatal dependente do Tesouro e seu ônus passa a constar dos orçamentos ou apenas se empurrará para frente o problema, que, inclusive, tende a crescer. A saída definitiva é vender o que ainda possa ter valor de mercado relevante e manter, se assim for a decisão política, os serviços considerados essenciais, com o mínimo de oneração ao Estado.
Para o consultor e professor da Fipecafi, Diogo Carneiro, privatizar os Correios no momento atual significaria vender um ativo de grande potencial por por um valor deteriorado. Em sua avaliação, a situação passa muito mais por uma reestruturação do que pela venda.
“Os Correios seria uma espécie de Kodak, que insiste em ficar vendendo máquina com filme para tirar foto, enquanto o mercado já está todo digital. A questão é muito mais estratégica e de modelo de negócios, do que privatizar ou não. E isso vai passar por ter mais eficiência, mais flexibilidade, um modelo mais enxuto, enxergar onde ela pode produzir valor de maneira mais efetiva e explorar melhor essa questão”, afirma Carneiro.
A crise dos Correios não é meramente conjuntural. É o resultado de um profundo desajuste entre sua estrutura e a nova realidade de mercado. O monopólio de cartas, que garantia receitas exclusivas, foi esmagado pela digitalização, respondendo hoje por apenas 14% do faturamento.
Simultaneamente, a estatal perdeu competitividade no segmento mais lucrativo, o de encomendas, para gigantes do e-commerce como Mercado Livre, Amazon e Loggi, que investiram em logística e tecnologia. Somam-se a isso, fatores internos como a má gestão, os cortes em investimentos, frota sucateada e um passivo trabalhista que já beira os R$ 700 milhões.
O dilema é agravado pela função social e pública dos Correios, que tem a obrigação constitucional de levar o serviço postal a todo o território nacional, incluindo localidades remotas não lucrativas. Estima-se que o custo da manutenção deste serviço universal seja de R$ 6 bilhões, sendo que a estatal arca sozinha com aproximadamente R$ 4,3 bilhões. Especialistas defendem que o papel social deve ser preservado, mas via subsídio direcionado e explícito pelo Tesouro, e não através da ineficiência operacional da empresa.
Orçamento de 2026
O caso dos Correios reflete uma crise mais ampla: o conjunto das estatais federais não-dependentes. O acordo firmado pelo governo com o Congresso para elevar a meta de déficit dessas empresas para R$ 10 bilhões em 2026, previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) aprovada pelo Legislativo, é o reconhecimento de que o rombo consolidado é o maior registrado em um quarto de século.
Essa flexibilização fiscal, embora politicamente necessária para dar previsibilidade orçamentária, sinaliza uma profunda dificuldade do Estado brasileiro em sanear suas empresas. A necessidade de acomodar um déficit de R$ 10 bilhões de reais coloca um fardo considerável no esforço de consolidação fiscal e reitera que, sem uma reforma estrutural robusta que defina o que deve ser privatizado, reestruturado ou subsidiado de forma transparente, o custo das estatais continuará a minar o Tesouro e, em última instância, a economia do país.
“O limite para se continuar financiando empresas estatais como os Correios é o custo político. Quando isso começar a ficar insustentável do ponto de vista do capital político, quando o pessoal vai ficar criticando isso, aí a tolerância chega ao fim e você vai ter alguma iniciativa um pouco mais enfática”, diz o professor.
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