O papa Leão XIV escreveu o prólogo de Peace Be With You! (A Paz Esteja Convosco, em tradução livre) disponível desde terça-feira (24) em vários países de língua inglesa que apresenta uma proposta contra o que o papa chama de "globalização da impotência".
Esse volume é uma tradução da versão publicada no ano passado pela Libreria Editrice Vaticana, editora da Santa Sé, que compila declarações de Leão XIV até o momento.
O prólogo da edição em inglês era inédito.
“Vivemos num mundo ferido por demasiados conflitos e assolado por hostilidades sangrentas”, diz o papa no texto publicado no Vatican News, serviço oficial de informações da Santa Sé. “O nacionalismo exacerbado atropela os direitos dos mais vulneráveis”.
Para Leão XIV, a paz — em suas palavras, “um dos grandes temas do nosso tempo” — tem uma natureza dupla: uma dimensão vertical, porque é “um dom” que Deus “concedeu aos homens e mulheres de todos os tempos através do nascimento de Jesus em Belém” e que o Ressuscitado “deu aos seus discípulos”; e uma dimensão horizontal, porque é “um compromisso”.
Deus jamais abençoa a violência
“Paz significa ensinar as crianças a respeitar os outros e a não praticar bullying quando brincam”, diz ele. “Paz significa superar nosso orgulho pessoal e dar espaço para os outros, na família, no trabalho, nos esportes”.
O papa diz: “A paz surge quando nosso coração e nossa vida são habitados pelo silêncio, pela meditação e pela escuta de Deus; porque Deus nunca abençoa a violência, nunca aprova o abuso dos outros, nem a exploração desenfreada da única Terra que desfigura a Criação, o carinho do Criador”.
“Esse presente põe em movimento a responsabilidade da nossa resposta, da nossa boa vontade”, diz Leão XIV.
Ele diz que, “antes de ser esmagada no campo de batalha”, a paz “é derrotada no coração humano quando cedemos ao egoísmo e à ganância, e quando permitimos que interesses partidários prevaleçam em vez de buscarmos o bem comum”.
Despersonalizar o inimigo, um prelúdio para a guerra
“Muitos escritores já disseram que é quando nos recusamos a ouvir as histórias dos outros que começamos a privá-los de sua dignidade”, diz o papa.
Ele diz que “despersonalizar os outros” é o primeiro passo para qualquer guerra. No lado oposto dessa tendência, segundo Leão XIV, está o desejo de “conhecer os outros”, que é, na verdade, “um prelúdio para a paz”. Para isso, diz o papa, “é preciso primeiro saber amar”, citando novamente santo Agostinho, que disse que “ninguém pode ser conhecido senão pela amizade”.
Contra a “globalização da impotência”
Num contexto marcado por tensões geopolíticas, Leão XIV fala sobre o sentimento de impotência que pode se espalhar entre a população e diz que os fiéis podem responder ao que ele chama de "globalização da impotência", sobretudo, com a oração.
“A oração é uma força desarmada que busca só o bem comum, sem exclusões. Rezando, desarmamos o nosso ego e tornamo-nos capazes de generosidade e sinceridade”, disse o papa.
“Nosso coração é o campo de batalha mais importante”
Para Leão XIV, a verdadeira batalha não começa nas frentes armadas, mas dentro de cada pessoa. “O nosso coração é o campo de batalha mais importante. É nele que devemos aprender a vitória incruenta, mas necessária, sobre os impulsos da morte e as tendências à dominação: só corações pacíficos podem construir um mundo de paz”, diz ele no texto.
O papa exorta também à prática de uma “cultura de reconciliação”, que coloca em prática no dia a dia “oficinas não violentas, espaços onde a suspeita em relação aos outros possa ser transformada numa oportunidade de encontro”.
“O coração é a fonte da paz: nele devemos aprender a encontrar-nos em vez de entrar em conflito, a confiar em vez de desconfiar, a ouvir e compreender em vez de nos fecharmos aos outros”, escreve Leão XIV.
O papa diz também que a responsabilidade não recai só no âmbito pessoal ou espiritual. Ele também se dirige diretamente aos atores institucionais. "Em última análise, a política e a comunidade internacional são responsáveis por facilitar a mediação de conflitos, usando as artes do diálogo e da diplomacia", diz Leão XIV.
O papa conclui o prólogo com uma exortação pedindo "ao Pai que conceda ao nosso mundo, a todos os povos, especialmente aos mais esquecidos e aos que mais sofrem, a bendita graça de uma paz justa e duradoura".
Este conteúdo apareceu primeiro no ACIDIGITAL.

DIÁRIO DO PAÍS
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